Pratos saborosos e/ou exóticos marcam muito o nosso imaginário do sabor. E o que se come por esse mundo afora é de assustar muita gente. O Brasil não escapa dos sabores e pratos exóticos. Na região do Vale do Paraíba (entre o Rio de Janeiro e São Paulo), por exemplo, a bunda da tanajura (ou içá) é um prato tradicional e, dizem, muito saboroso. As bundinhas da içá, que é a saúva fêmea, são retiradas, fritas e transformadas em farofa. Um sucesso. Quando eu era pequeno, uns 10 anos de idade, poderia ter me fartado de comer bunda de tanajura, mas não tive coragem. Morava com meus pais em Lagoa Santa, a uns 50 quilômetros de Belo Horizonte. Numa determinada época do ano, início das chuvas de verão, quando as saúvas gigantes saem voando dos formigueiros, um bando de gente sai atrás para caçá-las. As bundinhas, depois de arrancadas do corpo, eram consumidas fritinhas, com cachaça ou cerveja.
Bunda de tanajura ainda não comi, mas já me fartei de passarinho (juro que não faço mais isso). Ainda em Lagoa Santa, saía com os amigos, atiradeira em punho, pelos matos atrás de rolinha, sabiá e outros passarinhos grandes. Levávamos para a casa de um de nós e era uma festa os passarinhos fritos. Pouco depois, de volta ao Rio, fui morar em Santa Teresa e, na mata que circunda a Chácara do Céu, caçávamos passarinhos para comê-los fritos na casa do Serginho, um casarão antigo, de onde partíamos para a caçada, só que aí, mais sofisticada, com espingarda de chumbinho.
Gato também nunca comi. Posso até já ter comido um churrasquinho de gato, mas sem saber que se tratava do felino. Mas já vi gente que criava gato para comer. Em 1975 eu estava fazendo para a revista Auto Esporte uma grande reportagem sobre os campings do Brasil, numa época em que a prática do camping estava apenas começando no país. Procurando um camping na periferia de Blumenau (SC), acabei chegando em um sítio onde havia uma espécie de jaula de madeira, cheia de gatos, grandes e gordos. Ora, pensei, o que estaria fazendo em uma jaula um monte de gatos? Cheguei a pensar que eram para serem comidos, mas não quis acreditar nessa hipótese.
- Moço, o que estão fazendo esses gatos aí dentro? – perguntei ao dono do sítio.
- Estão engordando – foi a resposta.
- Ué, e pra quê?– pergunta besta.
- Pra gente comer, né.
Pois é. Eram para ser comidos mesmo.
Meu sogro, Joaquim Nunes, jura que conheceu um bar em Barra de Guaratiba, Zona Oeste do Rio de Janeiro, cuja especialidade da casa era justamente churrasquinho de gato. E as pessoas iam ali para saborear, conscientemente, a iguaria, na maior tranqüilidade do mundo.
Mas já comi perema, numa espécie de banquete em Macapá, capital do Amapá, na localidade de Curiaú, um antigo quilombo que ainda hoje guarda os resquícios daquela comunidade de negros. Comer perema não é para qualquer um. Tanto que, de todo o pessoal, umas dez pessoas, que fora do Rio para essa viagem a Macapá, fui o único a comer o bicho. Para quem não conhece, trata-se de um quelônio, da família do jabuti, também conhecido como jabuti machado, que mede pouco mais de 15 centímetros. Vive em pequenas poças d’água, perto dos igarapés. Sua carne é escura e depois de comê-la, nossos lábios ficam meio que grudando, graças a uma pequena gosma que faz parte da carne. Comer perema não é nada. Complicado mesmo é comer os miúdos da perema, preparados ensopados ao molho de pimenta e tucupi. Acompanha limão e farofa. Essa, confesso, não encarei não.
Se você falar em buchada de bode para uma socialite carioca ou paulista certamente verá uma certa cara de náusea, mas Joaquim, meu sogro, um amapaense nascido em Pernambuco e criado no Rio de Janeiro, teve época que comia duas em seguida. Buchada de bode pode lhe assustar? O que dizer então da cabeça de bode? Isso mesmo, cabeça de bode ensopada. Recentemente, na cidade alagoana de Delmiro Gouveia, comi uma buchada muito boa no Bar da Buchada, feita pelas habilidosas mãos da Dona Raimunda.
A buchada é feita com os miúdos do bode ou carneiro (tripa, fígado, bofe, língua), tudo picadinho, cozidos com coentro, tomate, cebola, pimentão e alho no bucho (estômago) do bicho. Como acompanhamento, a tal da cabeça de bode ensopada, com coração e mocotó. Se buchada é dose, imagine cabeça de bode ensopada.
Os árabes comem cabeça de carneiro; em Lausanne, Suíça, há um restaurante, o Café Romand, onde come-se cabeça de vitelo; em Portugal come-se cabeça de porco e por aí vai.
E o tal do sarapatel, comida feita com sangue e miúdos de porco? Muita gente também torce a cara quando se fala em língua e rabada, duas delícias que não é todo mundo que gosta. O saboroso molho pardo, feito com o sangue da galinha, também não desce pela goela de muita gente. Até a pobrezinha da ostra, só por ser crua (e viva) sofre um certo preconceito.
Voltando ao sangue de porco, não podemos esquecer o chouriço, feito com o próprio. O mais saboroso que eu comi foi na Fazenda Santo Inácio, em Rio das Flores, cidade do estado do Rio de Janeiro em que as fazendas restauradas do Ciclo Histórico do Vale do Café são o destaque. Cheguei na Santo Inácio no meio da noite e lá me esperavam os proprietários Vera e Celso Vale com uma cachacinha da região e um belo de um chouriço em cima de um imponente fogão de lenha, daqueles de ferro, enorme. Dentre outros pratos, é claro. O chouriço tinha sido preparado naquele dia mesmo, com todo o cuidado do mundo por ela e seu braço direito, a cozinheira Izabel, com o sangue do porco criado na própria fazenda. Tudo bem, não é todo mundo que gosta desse tipo de embutido feito com sangue de porco, mas, passando por Rio das Flores, siga o conselho, dê ao menos uma provada.
Vera Vale faz o chouriço assim: o sangue do porco é talhado com limão e temperado com pimenta, sal e cheiro-verde. Em seguida, embute-se na tripa do porco, que foi muito bem lavada com limão, fubá e água. Cozinha-se o chouriço e, na hora de comer, frita-se. Muito bom.
O caboclo que pesca nos mangues das cidades de Soure e Salvaterra, na Ilha de Marajó, tem por hábito comer turú. E vivo. Ah, você não sabe o que é turú? Bem, o turú é um molusco que vive dentro do caule de uma árvore do mangue, o mangueiro, e se alimenta da seiva dessa árvore. Na sua cabeça há uma espécie de broca, que vai furando o caule e se alimentando. Chega a medir um metro e parece um verme gigante. O caboclo corta o caule da árvore, retira o turú e o come vivinho da silva. Você encararia? Nem eu. Mas, menos mal, no Marajó se faz uma sopa de turú, como provei no Restaurante Paraíso Verde. Provei é o termo exato, já que, depois de ver o bicho inteirinho e, em seguida, cortado em pedaços para entrar na sopa, não fui além das cinco ou seis colheradas. Além disso, o gosto é muito forte.
Na China, nas famosas feiras de comida, se come espetinho de lacraia, de bicho da seda, testículos de porco, pênis de bode, escorpião, gafanhoto e vai por aí.
Noutro dia conheci num programa de televisão um negócio chamado balut, iguaria comida nas Filipinas. O balut é, nada mais nada menos, do que ovo de pata chocado em incubadeira. A gema do ovo vai se transformando em patinho e quando o, digamos assim, feto atinge a um determinado tamanho, o ovo é cozido e devidamente comido, com uma pimentinha.
No Rio de Janeiro, tem um restaurante que adoro, ali no Beco dos Barbeiros, na Praça XV, entre Primeiro de Março e Rua do Carmo. É o Escondidinho, onde se faz uma cabeça de cherne dos deuses. Trata-se de uma cabeça de peixe enorme, cozida em vários tipos de tempero, em volta da qual três pessoas comem de se fartar. É preciso encomendar com um dia de antecedência.
O povo do cangaço, Lampião e companhia, tinha que, algumas vezes, comer cacto: cabeça-de-frade, flecheiro, mandacaru. Tudo isso você encontra no Angicos, restaurante simples à beira do Rio São Francisco na cidade alagoana de Piranhas, das irmãs Luciana e Angecila, esta pesquisadora da comida do cangaço. Do cabeça-de-frade ela faz um delicioso doce. O flecheiro, ela usa como ingrediente para fazer um belo surubim empanado, com as tiras da polpa do cacto refogadas como acompanhamento. “Você sabia que do caule da urtiga se faz uma bela salada”?, pergunta Angecila. Urtiga, aquela planta que dá uma coceira danada? “É, ela mesmo”. Pois então, estando em Piranhas, prove a salada de caule de urtiga. Vale a pena.
*Chico Junior é jornalista, escritor e edita o site Viagem e Sabor
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