Eu posso lá ficar americanizada? (…)
Enquanto houver Brasil… na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu!
A brasilidade irreverente transformou Carmen Miranda em uma estrela internacional, reverenciada nos Estados Unidos. Hollywood se rendeu à originalidade, ao rebolado e à voz contagiante da cantora, que realizou 19 filmes e gravou cerca de 315 canções. Quando o assunto é Brasil, seu nome é referência musical e cultural: yes, nós temos Carmen Miranda.
O país exportou com categoria sua identidade nacional, através da pequena notável, que a ostentou, literalmente, na cabeça com seus balangandãs. No próximo dia 09 de fevereiro, ela completaria 100 anos e o Museu Carmen Miranda, no Flamengo, apresenta até o dia 15 uma programação para homenagear a cantora. Segundo o escritor Ruy Castro, autor de “Carmem, uma biografia”, ela foi praticamente a inventora da música popular brasileira como cantora, com um jeito brasileiro de cantar. E chegou pronta nos Estados Unidos.
Carmen nasceu em Portugal e sua família se mudou para a Lapa, no Rio de Janeiro, quando ela tinha dois anos de idade. O som contagiante da batucada e o ensopadinho de chuchu com camarão fizeram da cantora, uma brasileira, com certeza. Em 1933, ela foi a primeira artista a ter um contrato assinado na rádio Mayrink Veiga. Depois de brilhar nos anos dourados das rádios, Carmen foi contratada pelo empresário norte-americano Lee Schubert.
Na despedida, ela assumiu um compromisso: “Sigo para Nova York onde vou apresentar a música da nossa terra (…). Tenho, às vezes, receio da responsabilidade, mas na hora H, quando eu perguntar ao público ‘o que é que a baiana tem’, sinto que o calor da torcida dos meus amigos, que me ouvem agora, me dará ânimo para responder com aquele ‘it’ que vocês sabem. Quando voltar, contarei muitas coisas bonitas”.
O tabuleiro da notável levou para os americanos vatapá, caruru, mungunzá e umbu, untados de alegria e paixão pelo país. Castro conta que a residência da cantora, em Beverly Hills, era o verdadeiro consulado do Brasil na Califórnia, como lhe informou o cônsul Sergio Corrêa da Costa, que não saia de lá. “Carmen ajudava qualquer brasileiro que a procurasse pedindo dinheiro, visto de permanência ou passagem de volta para o Brasil. Sua mesa de almoço tinha de servir um banquete diário para tanta gente que aparecia até sem ser convidada”, disse.
De acordo com o escritor, a chegada aos Estados Unidos despertou o apetite da cantora de repente. “No estúdio da Fox, as grandes estrelas morriam de inveja das quantidades que ela comia sem, aparentemente, ganhar peso por causa disso”, destaca Castro. Talvez a saudade das comidas brasileira pode ter despertado esse apetite.
Depois de passar um ano fora do Brasil, Carmen retornou sob olhares desconfiados de alguns críticos e jornalistas mal intencionados, que começaram a persegui-la quando foi trabalhar nos Estados Unidos. A acusação era que a cantora teria se “americanizado” e “perdido o ritmo”. O primeiro show para celebrar sua volta foi no Cassino da Urca, em 15 de julho de 1940. À convite da primeira-dama, Darcy Vargas, ela se apresentou em um evento beneficente.
O sucesso estrondoso que fez na América não ecoou no cassino da Urca. Ao invés disso, o silêncio do público foi o cumprimento de boas-vindas. “Ela nunca poderia imaginar que a platéia - formada de ministros e outros membros do governo ditatorial de Getúlio, militares de extrema direita, empresários alemães e seus sócios brasileiros - teria aquele comportamento”, afirma Castro.

A resposta ao gelo de uma platéia simpatizante do nazi-fascismo foi o samba “Dizem que Voltei Americanizada”, assinado por Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Depois desse episódio, a cantora passsou 14 anos nos Estados Unidos. Ela só regressou em 1954 devido às dificuldades de viajar durante a guerra e aos compromissos de trabalho.
“E disseram que eu voltei americanizada
Com o ‘burro’ do dinheiro, que estou muito rica
Que não suporto mais o breque de um pandeiro
E fico arrepiada ouvindo uma cuíca
Disseram que com as mãos estou preocupada
E corre por aí, que eu sei, certo zum-zum
Que já não tenho molho, ritmo, nem nada
E dos balangandãs já não existe mais nenhum
Mas pra cima de mim, prá que tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com o samba e vivo no sereno
Topando a noite inteira a velha batucada
Nas rodas de malandro, minhas preferidas,
Eu digo é mesmo ‘eu te amo’, não ‘I love you’
Enquanto houver Brasil… na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu!”
Na letra de Vicente Paiva (autor também da Marcha do Bola Preta e co-autor de Mamãe Eu Quero), a identidade brasileira que Carmen se comprometeu a divulgar foi reforçada com batucada e chuchu com camarão. Se para um bom entendedor, meia palavra basta, a intérprete declarou em alto e bom som que samba e comida brasileira estavam no sangue. Seria impossível esquecer suas referências culturais.
Depois da língua, o vínculo com a comida é o mais resistente. E a mensagem do samba assegurou o elo entre Carmen e o Brasil, quando encerra o recado dizendo “Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu”.
Além da qualidade do samba, Castro afirma que a música também teve importância política. “Como houve reuniões nesse sentido entre ela e os compositores, pode-se supor que a referência ao camarão ensopadinho com chuchu tenha sido até sugerido por Carmen”, comenta.
O ensopadinho preferido da pequena notável é um prato da culinária carioca que tem origem em Portugal, assim como a cantora. Esse vegetal insípido ganhou fama e funcionalidade ao lado do camarão. E na voz de Carmen Miranda virou símbolo de sua ligação com o Brasil. O chuchu não poderia ter recebido mérito maior, com fama internacional, numa canção que marcou a carreira da cantora, ícone nacional.
À convite da Cozinha Malagueta, a chef Mariana Rodrigues preparou uma releitura do camarão com chuchu. A salada refrescante com camarão e salsa de chuchu é ideal para a estação.
Ingredientes
2 chuchus médios
400g de Camarão descascado e limpo
50ml de cachaça
1 colher (sopa) de manteiga
Raspas de 1 limão siciliano
2 colheres (sopa) de salsinha picada
Folhas de agrião e de manjericão
Sal e pimenta a q.b.
Azeite de oliva
Modo de fazer
Para a salsa de chuchu
Descasque e corte o chuchu em quadradinhos e leve para cozinhar em água e sal. Espere esfriar, misture com a salsa picada e regue com azeite. Acrescente um pouco de sal.
Para o camarão
Derreta a manteiga na frigideira com as raspas de limão e acrescente o camarão. Mexa bem por um minuto. Acrescente a cachaça e flambe por mais dois minutos. Tempere com pimenta (de preferência moída na hora) e verifique o sal. Desligue o fogo e espere esfriar. Misture o camarão com as folhas de agrião e manjericão. Sirva com a salsa de chuchu.
Equipe Malagueta
Texto: Juliana Dias
Fotos e edição imagens: Carolina Amorim (Fotografia Ruy Castro de Bel Pedrosa)
Ilustração: Alexandre Cavalcanti
Revisão: Juliana Esteves e Viviana Navarro
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fevereiro 6th, 2009 às 0:41
adorei o site principalmente as ilustrações bem criativa
fevereiro 6th, 2009 às 12:46
Pimentas, pimentas!!!! Vocês sempre arrasando!!! Adorei o texto, as fotos e a receitinha, he,he,he!!!! Foi um prazer imeeeenso!!!!
Viva Carmem Miranda!!!
um beijo e parabéns!!!!
Mari
fevereiro 6th, 2009 às 20:15
Parabéns pela felicíssima lembrança de homenagear nossa eterna Pequena Notável Carmen Miranda em seu centenário de nascimento. A brasilidade injetada no sangue de Carmen por tão boas coisas do Brasil que conheceu jamais saiu de seu corpo e de sua mente. Resgatarmos o orgulho de ser brasileiro também serve como forma de prestar-lhe homenagem. Para conhecer mais sobre a vida e obra de Carmen Miranda: http://www.carmen.miranda.nom.br Vamos comer muito camarão ensopadinho com chuchu! Grande abraço a todos.