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A hospitalidade da refeição

No ato da refeição são apresentadas dimensões de parentesco, amizade e inimizade como componentes essenciais nesta experiência que dificilmente são separadas das emoções que sucedem. As tradições históricas, relações de família, gênero, classe social assim como idade são refletidas nas escolhas como agente cultural importante,  simbolizando relações e instituições sociais numa função de sociabilidade e ainda reforçando a ordem social . A hospitalidade no ambiente doméstico e comercial como meio de estabelecer e manter relações sociais.

Em Lashley  et all in Sloan (2005) numa pesquisa sobre “Minha refeição inesquecível! A hospitalidade como experiência emocional ”, investigação esta realizada com os alunos do curso de Hotelaria e Hospitalidade de uma universidade britânica na faixa etária de 17 a 25 anos de classe média e média alta,  em redações construídas por este público sendo  avaliada  seis dimensões: ocasião, companhia, atmosfera, comida, serviço e ambiente , todas sinalizam e apontam para as emoções envolvidas.

Com relação à atmosfera, as conotações como calorosa, simples , acolhedora, tradicional e amistosa foram bastante valorizadas lembrando ambientes que levem a sensação do conhecido e não do ameaçador. A qualidade do atendimento quando em casa levou a sentirem-se livres do ambiente dos restaurante com protocolos e garçons pomposos.

Quanto à comida, a referida pesquisa tem sua maior atenção em relação as funções secundárias como despertar a saudade da família, da casa dos amigos, relembrar ligações entre indivíduos e momentos do passado e fazer ligação entre gerações, sinalização ainda a vida social dos indivíduos  como fator de destaque. Não é à toa que Nina Horta falou de alimentação dos descendentes de italiano por três semanas consecutivas, devido ao incontável número de e-mails que recebeu em função da comida da lembrança da casa da nonna, “comida da alma”.

No ambiente, entre o doméstico e o comercial, o denominador comum é que ambas as formas de refeição de ocasião envolvem expressões de afetividade entre parentes e amigos, aí de novo, o que marcou a refeição inesquecível foram os afetos envolvidos na experiência.

No atendimento o que pesa e, onde mais pesa a responsabilidade, segundo os pesquisados, do sucesso de uma refeição fica com a equipe de atendimento, como a delicadeza, a atenção aos detalhes e o desejo em servir, não tanto os aspectos técnicos do serviço, enfim o bom acolhimento, a hospitalidade. Foi também determinante a autenticidade das boas-vindas e a lembrança do nome do convidado ligando o fato a questão da auto-estima e do prestígio social. Isto me levou a lembrança do discurso do presidente do The Plaza em 1998: “Pense em morangos no Plaza Hotel de NY”.  Duarte (1998), quando houve a possibilidade de transformar seus 1400 funcionários em verdadeiros anfitriões, viu que com os  nomes na lapela foi criada uma atmosfera de cordialidade simplesmente com o artigo mais precioso do mundo, o nome de cada um.

Bem, como toda a pesquisa sugeriu “em todas as narrativas aparecem um reconhecimento de que o serviço no setor de hospitalidade envolve administração das emoções”, onde ainda penso que como o público pesquisado é formado de uma maioria de estrangeiros na cidade da universidade, a tendência a sentir na ausência da casa dando ainda maior importância a esta casa. A gente come também com a alma.
Para saborear com calma o deleitável blog do Carlos Dória: ebocalivre.blogspot.com

Recentemente, vimos, em pesquisas nacionais, que a crise não se abateu no contexto do lazer. No qual comer fora aparece em destaque e sinto que meus olhos andavam vendados, pois somente conseguia ver a questão como demanda de consumo e estava sempre teimando e insistindo no retorno das refeições caseiras, como uma solução para o aquecimento de corações cada vez mais esfriados e congelados na modernidade onde vivenciamos uma existência individualizada.

Nesta pesquisa e em experiências recentes de minha vida, que me obrigaram a procurar mais a rua do que trazer para dentro de minha casa, venho admitir que o comer fora pode ser muito gratificante, prazeroso e promove sensação de compartilhamento, pertencimento e união.  Mesmo que o seu envolvimento no caso esteja mais na escolha do local e no pagamento da conta, a gente pode não estar abrindo a casa mas pode sim abrir o coração.

* Elsa Maria Vieira de Souza Feder mestre em Turismo e Hotelaria / Univali

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