Da traição à crucificação, as últimas 12 horas de Jesus representam a Paixão de Cristo. O episódio é relembrado pelos cristãos durante a Sexta-feira Santa, que termina com a celebração da Páscoa no domingo. A morte de Jesus antecedeu o principal evento dos judeus, também chamado Festa dos Pães Ázimos, em memória à libertação do Egito. O período entre a morte e ressurreição de Cristo foi incorporado à comemoração pascal, que remete à esperança, passagem e renovação.
O simbolismo desse evento cristão está representado no maracujazeiro. E a concepção foi definida no Brasil do século XVI, após o Descobrimento. Os missionários europeus que chegaram ao país identificaram na flor do maracujá a imagem da Paixão de Cristo. O fruto brasileiro, marcante no cheiro e paladar, foi eleito para representar a principal história bíblica, que será relembrada na próxima semana, entre os dias 10 e 12 de abril.
A visão poética e religiosa deu origem ao nome como o maracujá é conhecido no exterior, fruit-de-la-passion em francês; e passion fruit em inglês. No livro “Delícias do Descobrimento – a gastronomia brasileira no século XVI” (Ed. Zahar) a autora Sheila Moura explica a associação: “A coroa floral representava a coroa de espinhos, os três estigmas da flor simbolizavam os três cravos que prenderam Cristo na cruz; e as cinco anteras florais, as cinco chagas de Cristo; as gavinhas eram os chicotes com que o açoitaram e o fruto redondo representa o mundo que Cristo veio salvar”.
Tratou-se de uma estratégia lúdica e didática para explicar princípios bíblicos por meio da comida para os nativos, alvos da evangelização cristã. Aliás, as mais importantes metáforas da Bíblia remetem à alimentação, como por exemplo, a Última Ceia que antecede a Paixão: “E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo” (Mateus 26:26).
O maracujazeiro era louvado por suas flores, pela sombra fresca e pelos frutos, que abrigavam colonos, viajantes e missionários nas tardes quentes da América Tropical. O padre Francisco Soares, que descreve o simbolismo sagrado da fruta, relata que havia maracujá em quantidade no Brasil do século XVI. Além de ser apreciado pelo sabor e o cheiro, era utilizado pelas propriedades medicinais. As folhas, por exemplo, eram bem pisadas e colocadas em cima de feridas para “tirar o fogo e câncer que tiver”, devido a sua natureza fria. Já o padre Fernão Cardim foi o primeiro a divulgar as virtudes do maracujá: “fruta de que se faz caso”. Ele se regalava em comer “a substância de pevides (caroços) e o sumo com certa teia que as cobre”, afirmando que “era de bom gosto”.
A natureza confirma a vocação da Fruta da Paixão. A época mais abundante é entre março e maio, exatamente durante a comemoração religiosa; e, depois, volta com força nos meses de dezembro e janeiro. Na cidade goiana de Pirinópolis, é comum as pessoas utilizarem a casca do maracujá para fazer as luminárias das procissões na Semana Santa, tradição dos séculos passados, quando não existia energia elétrica.
O Brasil faz jus ao título dado pelos religiosos. O país é o maior produtor de maracujá do mundo com produção de 330 mil toneladas por ano. A Bahia lidera o ranking no país, seguida por São Paulo, Sergipe e Minas Gerais. Existem cerca de 400 espécies pertecentes ao gênero passiflora, cerca de 160 delas dão frutos comestíveis, e algumas são originárias do Brasil. Os tipos mais comuns são maracujá-doce, maracujá-roxo e maracujá-amarelo, este último é o mais cultivado no mundo, sendo o país responsável por 95% da produção. É utilizado principalmente no preparo de sucos. Já o maracujá-doce é destinado para o mercado de fruta fresca, devido a sua baixa acidez.
Além da pré-disposição religiosa, a fruta é rica em vitamina C e potássio, o que a torna um diurético natural. A polpa também é rica em fibras, tem efeito sedativo e hipotensor, conforme descrito no livro “Saboreando Mudanças” (Ed. Senac-Rio). Para explorar as virtudes e beneces desse fruto, a Cozinha Malagueta recebeu a chef e consultora Marina Hernandez, que preparou receitas à base de maracujá como sugestão de menu durante a Semana Santa. Incluir o fruto na ceia do domingo de Páscoa é até propício, pois trata-se de um período de reflexão e o maracujá é calmante.
A chef conta que o maracujá é uma das suas frutas preferidas. Na chácara da família em Jaú, interior de São Paulo, há um maracujazeiro. Marina atribui o interesse pela fruta a sua mãe, que também é fã. De entrada, ela sugere Tabule de Quinua com redução de Fruta da Paixão, pimenta de cheiro e camarão. E para a sobremesa pascal, Trufa de framboesa com Fruta da Paixão. O doce - que é para comer de joelhos - foi testado com a turma de confeitaria da Univale, onde a chef é professora-convidada.
Para o tabule, reúna 250g de quinua; um pepino em cubos; 300g de camarão vermelho de tamanho médio; 12 tomates-cerejas bem maduros e cortado ao meio; orégano e ceboulete. Para a redução, separe um maracujá com as sementes, duas colheres (sopa) de açúcar e ½ pimenta de cheiro. Utilize broto de alfarroba para decorar o prato.
Comece cozinhando a quinua em água abundante com água e sal por 15 minutos (da mesma forma que se prepara macarrão) e depois escorra. Em uma saladeira, misture o pepino cortado em cubinhos com o tomate cereja, o orégano e a ceboulete picadinha. Tempere com três colheres (sopa) de azeite, sal e pimenta a gosto. Feito isto, grelhe os camarões rapidamente e reserve.
Para a redução, leve ao fogo baixo uma frigideira com a polpa do maracujá, o açúcar e a pimenta de cheiro. Mexa até a película se desprender da semente e ficar com aspecto brilhante, em ponto de espelho. Marina dá uma dica para conferir uma textura crocante ao tabule. Leve ao fogo baixo para secar sementes de maracujá bem lavadas e sem resíduos da película. Deixe por 10 minutos. Você terá sementes tostadas com um sabor defumado que pode ser acrescido à salada e outras preparações, como sorvetes, bolos e mousses. O tabule atende a petição de quatro devotos. Sirva da seguinte maneira: arrume o tabule, coloque os camarões, acrescente a redução como opção de molho, o broto de alfarroba e salpique as sementes tostadas.
Já a trufa exige um pouco mais de fé para preparar porque dividi-la é um exercício de generosidade. Leve ao fogo ½ maracujá e 150ml de polpa de fram
boesa até reduzir a quantidade. Passe em uma peneira. Não use a semente neste caso. Aqueça 70 g de creme de leite fresco, junte à redução e deixe reduzir mais um pouquinho. Misture essa porção quente ao chocolate ao leite picado (200g) e mexa energicamente para derreter e formar uma massa homogênea. O calor do creme de leite com a redução vai dissolver o chocolate. Deixe secar e enrole as trufas. Podem também ser banhadas em chocolate branco, se preferir.
A sobremesa da chef foi banhada em chocolate branco e pintada com aerógrafo na cor da framboesa. Ficou parecendo uma fruta. E ao provar, dá para sentir a cremosidade da trufa, deslizando no paladar e aquele pontinho de azedo. Talvez para lembrar que, depois do sacrifício vem a glória; ou para manter viva na memória que um pouco de acidez mantém o equilíbrio na vida ou no prato. Depois de ter dado graças a Deus pela ceia, divida irmamente o doce. Amém.
Equipe Malagueta
Texto: Juliana Dias
Fotos e edição de imagens: Carolina Amorim
Ilustração: Alexandre Cavalcanti
Revisão: Viviana Navarro
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abril 21st, 2009 às 20:23
O texto excita o conhecimento; sobre a fruta, sobre a religião e sobre a culinária. Parabéns pela matéria.