Alguns acham que os animais, de um modo geral, não têm personalidade. São seres vivos, irracionais, que passam a sua existência fazendo tudo pela simples tendência natural, o que chamam de instinto animal.
Certo. Eu não vou questionar. Mas há algo que eu quero confessar e deixar muito claro: os meus gatos possuem muita personalidade e mais, eles possuem gostos próprios, cada um com o seu, diferentes, divergentes e não menos importantes que os outros moradores da casa, nós, os humanos.
Os moradores felinos da casa não curtem comida velha, passada, não pode estar amolecida ou fora do padrão ideal: a ração deve estar crocante, saborosa e com um cheiro fresco de novidade. Assim como nós, quando salivamos ao sentir um refogado sendo preparado, um pão sendo assado, ou um bife grelhando na cozinha… hummm, os felinos, meus filhos, curtem o cheiro da ração deles.
O barulho que a ração faz dentro do pacote - quando se chocalha e que antecede a apresentação do prato - é relevante e necessária. É quando eles se dão conta que a comida será servida, a tal comida fresca (com aquele cheiro) e pontuo, devidamente crocante.
De onde estiverem, levantam, sacodem a farta pelagem, e correm com os rabos levantados demonstrando satisfação e euforia. Eu, para eles, sou uma espécie de Tia Anastácia, aquela que vive na cozinha, de avental, preparando quitutes de dar água na boca.
Além dessa magia envolta da ração favorita, Tia Anastácia aqui não poderia deixar por menos e eu já explico: assim como Narizinho, Emilia e Pedrinho cercavam a quituteira nas horas apropriadas para roubar um naco que fosse, aqui em casa, aprendi a cozinhar rodeada pelos peludos. Ai, batia uma pena danada… “tadinhos, tão sentindo cheiro da comida, deve estar dando vontade”. E o pote de ração lá, cheio, mas nessa hora era apenas um coadjuvante na trama que se formava.
Mas quando eu dava por mim, olhava pra baixo e via aqueles dois pares de olhos grandes, com cara de pedinte em porta de padaria (para quem viu Shrek e se lembra do Gato de Botas sabe exatamente a que olhar eu me refiro), até que um dia não me contive e coloquei um pouco de atum ralado enlatado (ao natural) no prato. Achei que eu estaria arrasando.
E não foi bem assim.
Um dos felinos amou, lambeu tudo, comeu incansavelmente até o prato praticamente levitar do chão. O outro, cheirou, lambeu meio que experimentando, e foi embora, me deu as costas como num movimento de contestação e frustração.
Até que passado um tempo, estava eu cozinhando um frango, e quando eu dei por mim, estavam os dois, aqueles mesmos olhares fixos… e eu, ainda não levando muita fé, coloquei uns pedaços no prato, pois não é que o tal revoltado do outro dia comeu tudo sem pestanejar? A outra, que havia devorado o atum nem chegou perto do frango.
Aí, meus caros, eu volto lá para o início desse texto e volto a afirmar: Que os gatos têm gostos, isso eles têm.
Aqui em casa Gigi é gata de peixe, e FreDi é gato de frango. À noite, são dois pratinhos separados, cada qual com o seu. Assim como nós, uns odeiam frutos do mar e outros não gostam de carne.
*Hilaine Yaccoub é antropóloga, amante de gatos e assina o blog Teias do Consumo.
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abril 23rd, 2009 às 21:17
Que delícia!!!
Também aprendi cozinhar - e ainda cozinho - sob o olhar dos peludos.
E confirmo: cada um tem seu paladar definido, uma identidade alimentar
em que o começo de tudo está no aroma.
Abraços felinos.
abril 23rd, 2009 às 22:31
Isso mesmo: cada gato tem uma personalidade completamente diferente e gostos também… aqui em casa enjoaram da ração e fui obrigada a jogar fora o resto do saco de 8kg e mudar definitivamente de marca - eles passavam fome, mas não comiam de jeito nenhum a ração antiga! bjs,
novembro 28th, 2009 às 18:05
Tenho 3 gatos e cada um gosta de algo diferente. Fora as carnes, uma gosta de xuxu, outro é tarado por azeitona e o terceiro adora amendoim, pinhão e já comeu até alcachofra!!Hilário!