Por mais que, inicialmente, pareça remoto, há um forte vínculo de ideal antropofágico na doçaria. Diga-se na procedência e na ancestralidade dos conventos medievais de Portugal, que de maneira sensual e também erótica oferecem ao paladar público, por exemplo, uma barriguinha de freira.
Doce de cor muito branca como, certamente, pode-se imaginar uma barriga de freira, que nunca vai ao sol, sempre protegida pelos muitos panos do hábito. Esse doce, uma sobremesa muito conhecida no Brasil, nasce de massa fina e branca, como um pastel de hóstia, quase transparente, e é recheado com doce de ovos, segundo a melhor tradição portuguesa.
Para essa categoria de doce antropomórfico, acrescenta-se a lista outros doces como: beiços de moça e os biscoitos antropológicos, ambos recolhidos em caderno de receita de 1892 (Brasil).
Beiços de moça
Toma-se o leite de dois cocos da Bahia, deita-lhes 500gr de açúcar refinado, e ferve-se até a calda chegar ao ponto de xarope; deixa-se esfriar juntando-lhes 9 gemas de ovos bem batidas; leva-se de novo ao fogo, ferve-se, mexendo-se durante 10 minutos e pondo-se depois em xícaras; polvilha-se com canela em pó.
Biscoitos antropomórficos
Escalda-se um prato fundo de fubá com 125gr de gordura fervendo, feito o que, juntem-se-lhes dois pratos de polvilho, 125gr de manteiga, 3 ovos e 5 gemas; sova-se bem essa massa até ficar bem fina, estende-se e corta-se figuras de animais, mulheres; que, em bandejas polvilhadas, se levam ao fogo regular.
Também, nas festas infantis, o tão conhecido “olho-de-sogra”, que lembra o olho humano, está aí em formato de doce, docinho para ser comido a qualquer momento. Há essa identificação antropomorfa com a comida no ato de comer. Não é apenas a combinação dos ingredientes, mas, principalmente, a oportunidade de comer o que representa e simboliza cada comida.
O doce é um oferecimento festivo e muito especial, pois comer o doce é quase que comer o prazer ali representado pelo açúcar - com cravo, canela, frutas, chocolate - ou qualquer outro ingrediente que traga referências de um momento especial para o paladar, como uma sobremesa ou mesmo como gula. Ora, quem nunca comeu leite condensado de colherada diante da porta da geladeira entreaberta?
Ainda nessa busca ancestral do doce, chega-se a um aspecto fundamental que é o de que o doce deve ser belo, deve seduzir, inicialmente, pela forma, cor e, certamente, no odor.
O doce passa a ser também sensual, por exemplo, o melrinho (órgão genital feminino) e os sardões (órgão genital masculino), conforme as tradições portuguesas, como lembra ainda Gilberto Freyre em Açúcar (1939). Há outro doce chamado testículos de São Gonçalo.
Juntam-se a essas representações os pães antropomorfos como um dos muitos exemplos de uma doçaria e uma confeitaria voltadas à reproduzirem imagens, onde não há apenas uma semelhança entre o quê se come e quem se come.
Permanecem, então, os princípios clássicos da antropofagia que é a mimese do outro, incorporando aspectos e valores do outro ao que se come, comendo-se, assim, literalmente o outro.
Comer o coração e comer o amor. Comer os órgãos sexuais e comer o poder viril. Assim, remotamente alguns desses doces trazem a figura do corpo enquanto comidas simbólicas e que, certamente, são deliciosas, docemente deliciosas.
Há também em alguns doces a transferência de comportamentos ou de personagens que passam a serem lembrados ora por um ingrediente, ora pela receita.
“É muito da região a graça de chamar o namorado à bem amado seu doce de coco; e da moça muito dengosa se diz que é alfenim” (Freyre, Açúcar, 49).
O beijo doce, o carinho doce, são formas de valorizar o que é bom, e o sentimento amoroso aliado ao imaginário da doçura, do comportamento meigo, humano e também divino.
Da doçaria conventual de Portugal, trago exemplos de um doce emocional que é o suspiro de frade.
Suspiros de frade
Receita da ordem dos Maristas (1817)
Ingredientes: 4 fatias de pão, azeite de oliva, 1 colher de farinha de trigo, 3 gemas de ovos, 100gr de açúcar, 1 copo de leite.
Preparo: fritam-se as fatias de pão no azeite, em fogo médio, até ficarem douradas. Mistura-se as gemas, a farinha, o açúcar e o leite em outra panela para cozinhar. Depois, derrama-se esse creme sobre as fatias fritas.
E tantos, outros, muitos, para comer e lembrar: língua de moça, língua de mulata, beijos de freira (Convento de Santa Clara, Vila do Conde), papos de anjos, confirmando aquele sentido de que o que é doce é bom e está também em outros planos além do humano.
* Raul Lody é antropólogo, museólogo, pesquisador na área de alimentação com diversos livros publicados e, entre outras atividades, é idealizador do Museu de Gastronomia Baiana.
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