Mergulhei de cabeça nas borbulhas da vida de Barbe-Nicole Clicquot Ponsardin, La Grand Dame, ou melhor, a Viúva Clicquot, que teve a glória de estampar seu nome no rótulo laranja de um dos melhores champagnes do mundo.” A viúva Clicquot - história de um império do champanhe e da mulher que o construiu”, de Tilar J. Mazzeo, é um livro editado pela Rocco, mas que ainda não chegou as livrarias. Leio um copião, que a editora me encaminhou em primeira mão (merci, merci).
Curiosamente, “madame” estava longe de ser uma feminista. Jamais defendeu os direitos das mulheres: cercou-se de empregados homens, sócios e amigos. E ainda subestimou a capacidade intelectual de sua única filha. Excluiu a moça do negócio.
Durante quase um século, o negócio do champagne esteve em mãos femininas. “Nenhuma industria do mundo foi tão influenciada pelo sexo feminino quanto a do champagne”.
A garrafa aqui embaixo é especialiíssima: é a edição especial dos 100 anos da Johnnie Walker Black Label. No Rio, só tem no clube do uisque da rede Porcão.. O Striding Man, o “homem caminhante” recebeu um banho de ouro 18 quilates nas garrafas totalmente pretas.
É um livro delicioso. E revelador.
Foi graças ao encarte que veio junto com a caixa de um Grande Dame 1966, que a autora resolveu explorar a vida da viúva. Eram enxutas 35 palavras sobre ela. E nada mais. Mazzeo resolveu saber mais, bem mais sobre essa francesa, filha de comerciantes ricos, que circulou pela alta aristocracia da época. E que, apesar de criada para ser mulher, mãe e dona de casa, com menos de 30 anos, depois de ficar viuva e sem qualquer preparo ou experiência, “agarrou com mão firme as rédeas do seu próprio destino”. Transformou um incipiente negocio familiar de vinhos em uma das melhores casas de champanhe do mundo.
Aos 40 anos, Clicquot era uma das mais ricas e famosas empresárias de toda a Europa, e uma das primeiras mulheres de negócios da história a liderar um império comercial internacional.
Numa época de rigidez cultural, ela abriu caminho para uma segunda geração de mulheres empreendedoras no mesmo ramo, o do champagne. Louise Pommery é uma delas. E sua atuação foi fundamental: criou a versão brut da bebida. E ainda teve Lily Bollinger, Mathilde-Laurent Perrier…
De 1790 a 1830, as vendas cresceram quase mil por cento, passando de umas poucas centenas de garrafas a mais de cinco milhões por ano. “No despontar do século XX, antes mesmo que a Era do Jazz fizesse da bebida o simbolo de uma época, o mundo já comprava 20 milhões de garrafas de espumantes por ano.
Uma curiosidade: o champagne não foi descoberto na França. Os ingleses foram os primeiros a aprender o segredo de fazer o vinho espumar. E os primeiros a lançar no mercado vinhos com bolhas.
Detalhes, só mesmo lendo o livro.
*Luciana Fróes é crítica de gastronomia do Jornal O Globo
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