Categoria | Destaques

Embaixador da cozinha paraense

O paraense Paulo Martins lidera a seleção de cozinheiros brasileiros, que se inspiraram na iniciativa de franceses como Claude Troisgros, Laurent Suaudeau e o italiano Dânio Braga.  chef_paulomartins.jpgO trabalho, quase arqueológico, de garimpar ingredientes resultou numa expedição gastronômica em busca dos sabores regionais, influenciando o perfil de cozinheiros da nova safra “De Origem Brasileira”. Ao norte do país, em Belém do Pará, o arquiteto Paulo abriu um restaurante no porão da casa dos avós, em 1972. À proposta, despretensiosa, ele deu o nome de Lá em Casa.


Em 1980, o Plano B virou o A e o cozinheiro trocou a arquitetura pela cozinha. Daí em diante se engajou na causa nobre de apresentar para o Brasil o potencial dos ingredientes da Amazônia. Pesquisador empírico dos sabores regionais, Martins mobilizou o time de novos chefs do eixo Rio-São Paulo como Flávia Quaresma, Alex Atala, Bel Coelho e Andrea Tinoco. Ele apresentou iguarias como jambu, pupunha, tapioca e tucupi para que esses influenciadores do paladar pudessem promovê-las em seus restaurantes.

Desde 1999, o chef organiza o Festival Ver o Peso da Cozinha Paraense, movimento que atraiu outros cozinheiros, jornalistas e profissionais do setor de alimentação. Realizado em parceria com o governo do Estado, o objetivo é fomentar a agricultura familiar e valorizar a identidade alimentar do Pará. Dentro e fora do Brasil, ele se mostrou incansável e determinado em valorizar os sabores nacionais. Até o catalão Ferran Adrià provou tucupi, tapioca e jambu, apresentados por Martins. Para suprir a dificuldade de distribuição desses produtos típicos, nos grandes centros urbanos, ele pessoalmente despachava encomendas para os chefs.

Família assume a cozinha do chef
A rotina frenética de Paulo Martins – que também incluía aulas em faculdades, cursos e participação em eventos – teve de ser interrompida devido à problemas de saúde. Em maio de 2008, ele se submeteu a uma cirurgia na coluna, para corrigir o achatamento das vértebras. “Ele é diabético há mais de 20 anos e nunca parou para se cuidar direito. O problema na coluna foi agravado pela diabetes”, conta a filha Joanna Martins.

Associado à diabetes, fatores neurológicos e psicológicos deixaram o chef sem fala. Ele compreende o que está sendo dito, mas não consegue se expressar.  “A recuperação é lenta, mas está acontecendo. Às vezes, nos surpreendemos com o seu jeito brincalhão e implicante”, diz.  Hoje, o dia a dia do chef é monitorado por enfermeiros durante 24 horas, em uma rotina de tratamentos intensivos. A alimentação está sob vigilância, mas permite concessões para alegrar o cozinheiro. Uma vez por semana é dia de alegria.  No domingo passado, dia 10, ele completou 63 anos e a comemoração foi com feijoada.

A família se organizou para assumir o restaurante da Estação das Docas e fechou a unidade localizada na Rua Dom Pedro I. A esposa Tânia Martins, que estava afastada dos negócios, retomou com as filhas Joana (28 anos) e Daniela (32 anos). Cada uma está atuando numa frente. Joanna, formada em publicidade, cuida da área administrativa e resolveu estudar administração. Daniela coordena o operacional da cozinha e pretende seguir os passos do pai: investir em pesquisas culinárias e na experiência empírica. No momento, o cardápio é o mesmo do chef. Daniela está se preparando para desenvolver a parte de criação. A mãe se divide entre a supervisão da casa e os cuidados com o chef.

Para Joanna, foi um desafio manter a qualidade de 37 anos de restaurante, conquistada com esmero pelo pai comprometido com a cozinha brasileira. “Nascemos no restaurante, que ficava do lado de casa. Temos contato desde pequena”, conta. A equipe familiar recebeu o apoio dos funcionários da casa, compondo um mutirão para zelar pelo La em Casa.  O primeiro trimestre foi um “jogo de fogo”, ela diz que, quando o pai se restabelecer, não precisará nem mais trabalhar. “É só se divertir com cursos, palestras, eventos e pesquisas”, brinca a filha.  Ela acrescenta que o chef sempre desejou ver a família envolvida diretamente no restaurante.

Companheirismo na cozinha
Desde que se afastou do trabalho, Martins tem recebido a visita de vários colegas de profissão como Alex Atala, Danio Braga, Mônica Rangel, Roberto Ravióli. E também chefs de fora do país como Vitor Sobral, Ferran Adriá e Juan Mari Arzak.  A chef Teresa Corção, engajada na divulgação da mandioca, conta que Martins lhe ensinou a respeito da importância da mandioca para o Pará. “Foi ele que me fez provar o tucupi pela primeira vez e me contou que Bragança era o local de origem da melhor farinha d’água da Amazônia. Mais tarde, seguindo sua orientação e de outros paraenses apaixonados pela farinha de Bragança, filmei com Manuel Carvalho meu primeiro documentário - ‘O professor da farinha’ - naquele município; mostrando o incrível Seu Bené que hoje exibe, orgulhoso, seu título de mestre dado pelo Ministério da Cultura. Paulo foi pioneiro em valorizar não só a cultura gastronômica paraense mas a nossa identidade brasileira”, comenta a chef.

Homenagem ao Embaixador da Cozinha paraensevendedorapimenta.jpg
Entre os dias 20 e 21 de julho será realizada uma versão reduzida do Festival Ver o Peso, em Belém do Pará. O evento completaria 10 anos em 2009, mas foi interrompido em 2006. Os colegas Alex Atala, César Santos, Dânio Braga e Claude Troisgros - em parceria com a Associação da Boa Lembrança - farão uma coletiva de imprensa e um jantar beneficente a oito mãos. O chef Paulo Martins será o homenageado. “Vamos homenagear o coração enorme que ele tem e o carinho dedicado à cozinha, marca registrada desse embaixador do Pará”, declara Dânio.  O pernambucano César Santos diz que o considera um dos mestres mais importantes da gastronomia brasileira. “O chef com sua experiência profissional soube, com sua excelência, levar os sabores de Belém do Pará para o Brasil e para o mundo”, completa.


Já Laurent Suadeau, uma das referências de Paulo, também reverencia a atuação do cozinheiro. “Ainda me lembro do Paulo Martins sentado nas arquibancadas do Gourmet Show na Fispal de 1997, quando se levantou na platéia e deixou claro que havia uma diferença entre a cozinha amazonense e a cozinha paraense. Paulo faz parte das pessoas que eu mais respeito pelo engajamento e compromisso cultural gastronômico, que ele defende de forma pura e verdadeira. Ao meu ver são pessoas como ele, que deveriam receber todas as homenagens do Ministério da Cultura deste país, porque ajudam a desenvolver uma consciência e postura cívica em um país tão complexo como o Brasil”, declara.

De acordo com o chef amazonense Ofir de Oliveira, proprietário do restaurante Sabor Selvagem, Martins é sem dúvida o ícone da culinária paraense. “O Festival Ver o Peso valorizou nossa cozinha e trouxe chefs renomados para conhecerem e reconhecerem os sabores inigualáveis da Amazônia Tive a honra de participar de duas edições, vivenciando a magnitude deste evento que propiciou a troca de conhecimentos e criação de novos sabores. Fato que indubitavelmente colaborou para este “boom” nacional e internacional de valorização desta gastronomia”, afirma.

Homenagem Malagueta
Nesta quinta-feira, o Informativo Malagueta completa 100 edições e a matéria é em homenagem ao chef Paulo Martins por ter sido nosso primeiro entrevistado. Ele abriu com chave de ouro a empreitada de valorizar a gastronomia brasileira, a partir da comunicação.  Ao acompanhar o seu afastamento da cozinha, decidimos ressaltar seu comprometimento com a cultura alimentar do Brasil e compartilhar com admiradores de seu trabalho e entusiastas da gastronomia a figura de um cozinheiro extraordinário, inquieto e persistente, que revelou um pouco da diversidade e nobreza dos produtos nacionais para os brasileiros.  É um privilégio poder divulgar a gastronomia brasileira por meio de homens engajados como Paulo Martins.

Texto: Juliana Dias
Revisão: Juliana Esteves
Edição de imagens: Carolina Amorim

Imprimir este Post Imprimir este Post

11 comentários sobre este Post

  1. Simone Diz:

    É muito bom a gente ter gente, como essa gente, divulgando nosso País de uma maneira tão gostosa, agradável e bonita. Nos dá muito orgulho de sermos Brasileiros. Parabéns Paul. Como um bom taurino, q vc é, tenho certeza que sairá desse entrave. São momentos q precisamos passar para enxergar outros. Boa sorte e vamú qui vamú. bjs, Simone

  2. Alida Viegas Levy Diz:

    RIO, 15 de maio de 2009
    A Juliana Dias e à equipe do Informativo Malagueta, PARABÉNS pela excelente homenagem ao Chef “P.Martins”, como eu costumava chamá-lo como amiga pessoal da família Martins, durante as inesquecíveis degustações de suas brilhantes experiencias culinárias. Sem contar, a sua excelente habilidade em executar o trivial regional, nacional e às demais culinárias desenvolvidas por expers do mundo inteiro. Assim como, amplio a admiração que vc manifesta pela pessoa que ele é, um homem que não guardou para si as incríveis descobertas e ao invés disto foi sempre incansável na propagação, divulgação e socialização das mesmas. Sem pensar nas futuras concorrencias profissionais, o que infelizmente testemunhei em diversas ocasiões, quando muitos, no âmbito regional, após terem acesso a suas maravilhosas e saborosas descobertas culinárias, simplesmente omitiam os créditos a ele, assumiam a autoria e tornavam-se concorrentes de mesma estirpe. Enfim, como vc pode ver o “P” É REALMENTE UMA ESTRELA, aliás tal qual a bandeira de seu estado, o Pará, que tem uma estrela no meio da mesma.
    E parafraseando vc quando relata ser um privilégio divulgar um trabalho desnvolvido com profissionalismo, ciência e ética como foi o do Paulo Martins, eu também me sinto desta forma ao me remeter a nossa longa convivencia social, mais de 30 anos, e ter sido benefiada com o privilégio de testemunhar o processo que hoje lhe está sendo oportunizado divulgar.
    Mais uma vez ‘Parabéns’!!!!!!!!
    Alida V. Levy

  3. Eduardo Daher Diz:

    Parabens a Malagueta por essa importante homenagem ao Paulo Martins que sempre levantou a bandeira da nossa culinaria para o mundo.
    Tive no Paulo o melhor critico nos meus sonhos de fazer um queijo de búfala de qualidade, provando as amostras, criticando o sabor, a quantidade de sal, enfim ensinando o que de melhor se devia fazer.
    No ultimo Ver o Peso da Cozinha Paraensew, com sua motivação, montamos um laticinio dentro do espaço do festival fazendo queijo ao vivo, na hora para as pessoas verem como era. Isso foi ideia sua.
    Parabens Tânia pela sua dedicação e determinação ao empunhar uma bandeira que não se pode deixar cair. Você tambem é uma heroina.

  4. André Saburó Matsumoto Diz:

    Gostaria de parabenizar a todos que fazem a Malagueta pela merecida homenagem ao amigo e ícone da gastronomia brasileira Paulo Martins. Agradeço por todo aprendizado adiquirido durante todos os festivais que estivemos juntos. Tânia, Joana e Daniela um grande abraço do amigo japapernambucano.

    André Saburó Matsumoto

  5. Rsângela M.Kzam Diz:

    Parabéns ao site Malagueta pela mais do que merecida homenagem ao querido amigo chef Paulo Martins.Paulo um dia sonhou em mostrar para o mundo que a verdadeira cozinha brasileira estava em nossos ingredientes e temperos.E conseguiu. Não apenas conseguiu como também,através de seus amigos e admiradores, divulgou e disseminou como a gastronomia paraense enriquece, e muito,outros sabores,quando utilizamos nossos tucupi,açai,farinha de mandioca,pupunha,bacuri,cupuaçu,etc,etc…Um sonho quando é compartilhado por todos, deixa de ser sonho e vira realidade.
    E Paulo tornou realidade para o mundo a importância dos nossos sabores.
    Paulo vai recuperar a saude,se Deus quiser,e vai continuar criando e sonhando ainda muito mais,desde quando pela primeira vez comentou conosco a idéia maluca do Ver o Peso da cozinha paraense.
    Dona Ana deve estar orgulhosa, e rindo,como fazia sempre.
    Tânia,beijos ao Paulo,você e filhas.

  6. Fernando Jares Diz:

    Amplio os parabéns para a jornalista Juliana Dias, pelo primor do texto, correto e emocionante, para os amigos do Paulo e para qualquer paraense ou brasileiro. É um orgulho ter um amigo e um conterrâneo assim, que inspira positivamente, com amor, pessoas de origens tão distantes e diferentes. Já parabenizei, ontem (18/05) a autora do texto, em meu blog Pelas Ruas de Belém (pode ler o post, em http://pelasruasdebelem.zip.net/arch2009-05-01_2009-05-31.html#2009_05-18_17_31_58-10174982-0). Agora, agradeço pela forma carinhosa de seu texto, porque me ajudou muito, como está lá escrito. Parabéns a você Juliana, parabéns ao Malagueta, pelo excelente trabalho realizado, pelas 100 edições. Afinal, quem começa com Paulo Martins, quer o que? Aliás, o Paulo foi assunto do segundo dia de meu blog, lá em junho de 2007 – o primeiro, foi N. S. de Nazaré e o seu Círio, o maior acontecimento pelas ruas de Belém.
    Parabéns também para a Tãnia, para as meninas e para a d. Anna, a criadora do Paulo, que já nos precedeu no encontro com o Senhor.
    fernando

  7. DUCA LAPENDA Diz:

    FAÇO MINHAS AS PALAVRAS DO AMIGO SABURÓ ACIME E REINTERO -AS.
    PAULO TEM UMA IMPORTÂNCIA INCALCULAVEL PARA A CULTURA GASTRONOMICA DO BRASIL .PROFISSIONAL DEDICADO,PAI DEVOTADO, AMIGO FIEL E GENEROSO.COLEGA LEAL, ESTE É PAULO MARTINS.!!

  8. angela renata Diz:

    Não consegui encontrar a receita do tartare de atum e surubim defumado tapioca e caviar baby jambu e vinagrete de tucupi.
    Alguem pode passar para mim.

    Angela Renata
    arsc16@hotmail.com

  9. Arnaldo Adnet Diz:

    O Lá em casa é a cara de Belém! Paulo e sua mãe, Ana Maria Martins, estavam sempre presentes no eixo Lá em casa / O Outro, restaurantes que marcaram os anos em que vivi em Belem, de 1987 a 1997. O arroz de jambu com castanha acompanhava vários pratos e me dá água na boca só de lembrar!

    Lembro especialmente dos festivais “Restos” em que Paulo se permitia ousar mais do que no dia a dia do restaurante, com resultados maravilhosos.

    Melhoras para Paulo e Deus abençoe Tânia e as meninas, para que a tradição se perpetue com a qualidade de sempre.

  10. Juliana Pinto Diz:

    Fiquei feliz ao ler o texto sobre o Paulo, mesmo que tardiamente. Ele além de ser grande amigo de meu pai, é uma pessoa encantadora. O Lá em Casa fez parte da minha infância, juventude e de certa forma, já na fase adulta, esteve presente quando o Paulo aceitou meu convite “louco” p/ participar de um evento “gastronômico” em Santarém, Pará. Ele jamais imaginou “ver o peso” daquele evento rsrsrsrsr. Mesmo assim aceitou o desafio, muito por amizade, acredito. Foi um momento marcante p/ mim. Jamais esquecerei seu gesto. Torço por sua recuperação. Não podia deixar de registrar minha admiração a uma pessoa tão especial e marcante da história gastronômica de nossa região. Saúde Paulo! Abraços, Tânia.

  11. Ruben Zevallos Jr. Diz:

    Gosto muito da cozinha paraense… pena que não tive a oportunidade de conhecer o Paulo… tomara que possa na próxima vez que for a Belém possa.

Escreva seu comentário

  • Popular
  • Novos
  • Comentários
  • Tags
  • Newsletter

Fotos Flickr - Ver todas as fotos

Twitter