Passar o dia sem tomar um cafezinho pode ser motivo de baixa produtividade e indisposição. De manhã, é aquela dose para oxigenar o cérebro e começar o dia com energia. No meio da tarde, é o momento do break, tempo para pensar, organizar as idéias e ganhar fôlego para continuar a jornada. No Brasil, a bebida trivial se consolida em 2009 como um produto gourmet. A segunda estimativa para a safra deste ano, divulgada em 07 de maio, indica uma produção de 39 milhões de sacas. Do total, 28,323 milhões são da variedade arábica, considerada a mais fina na escala de qualidade. Os dados são da Conab (agência governamental responsável pelos levantamentos agrícolas). O consumo de cafés gourmets, que entre 2001 e 2002 praticamente inexistia, tem crescido em média de 15% ao ano. Os principais estados produtores são Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Bahia e Paraná.
Ainda no mês de maio, o Brasil teve a alta qualidade de seus cafés reconhecida mundialmente no campeonato Rainforest Alliance Cupping 2009. A competição reuniu cerca de 80 fazendas certificadas de 11 países. O café nacional conquistou a quarta posição, deixando para trás Colômbia, Nicarágua, Honduras, México, Panamá e Etiópia. O resultado foi divulgado em Atlanta, nos Estados Unidos, no último dia 17, durante a conferência e feira de cafés especiais da SCAA (Specialty Coffee Association of America). O concurso é promovido pela Rainforest Alliance, uma das maiores certificadoras socioambientais, que associa qualidade à sustentabilidade.
Das 10 fazendas brasileiras participantes, três dividiram a quarta colocação: Capoeirinha, da Ipanema Coffees; Fazenda Lambari; e Pinheiros, da Sete Cachoeiras Estate Coffee. A melhor pontuada foi a Ipanema Coffees. “O Brasil é muito avançado na cafeicultura sustentável e agora ganha esse grande reconhecimento mundial”, diz Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da ABIC (Associação Brasileira da Indústria de Café). A entidade, que possui a certificação PCS (Programa Cafés Sustentáveis do Brasil), já estuda, inclusive, uma parceria com a Rainforest para aumentar a demanda desses cafés no mercado interno.
Segundo cafeólogo Edgard Bressani, diretor do mercado externo da Ipanema Coffees, o investimento de cafés de qualidade no mercado brasileiro está associado à nova política comercial adotada pelo segmento. “Temos empresas que antes somente exportavam os seus melhores grãos e que agora reservam parte deste volume para o mercado interno”, explica. O conceito de terroir, bastante difundido na cultura do vinho, traz para a xícara novos sabores para o consumidor. A bebida ganhou sofisticação e tornou-se tema de discussão. “Isso também se deve ao trabalho desenvolvido pela ABIC que hoje classifica os cafés em tradicionais, superiores e gourmets”, afirma.
Bressani, que também é presidente da ACBB (Associação Brasileira de Café e Barista) e autor do “Guia do Barista”, destaca os campeonatos nacionais que promovem o consumo dos cafés especiais. Herszkowicz afirma que o país é o que mais realiza concursos de qualidade. A illy Café, por exemplo, desde 1991 estimula eventos de competição. E a figura do barista, profissional especializado em extrair o melhor do pó para a xícara, contribuiu para sofisticar a degustação. “O nascimento desta nova profissão deu suporte ao trabalho dos produtores de cafés de qualidade. De nada adianta ter os melhores cafés. Esses embaixadores do café têm a missão de ajudar a elevar o consumo da bebida de qualidade no país”, afirma Bressani.
O crescimento das redes de cafeterias influenciaram a experimentação de cafés superiores por parte dos consumidores. A média de crescimento é de 20% ao ano. Estima-se que o Brasil tenha entre 2.500 e 3.000 estabelecimentos. Até 2010, Herszkowicz prevê 750 novas cafeterias. Ele comenta que o consumidor já tem preferência e sabe avaliar características como acidez, corpo, doçura, aromas frutados e florais. É tão complexo quanto apreciar um bom vinho.
“Já está inserido no mercado de coisas que dão prazer. É um consumo de qualidade e democrático porque a xícara de café tem preço mais acessível do que uma taça de vinho, por exemplo”, afirma o diretor-executivo da ABIC. O país é o segundo mercado consumidor. A meta brasileira é chegar a 2011 e 2012 com um consumo interno de 21 milhões de sacas, passando a ser o maior consumidor mundial. Hoje, o país se destaca como o maior produtor e exportador de grãos.
Além das cafeterias, o café gourmet chegou às prateleiras de supermercado. Devido ao Programa Qualidade do Café da ABIC, há cerca de 75 marcas especiais monitoradas pela entidade. Em maio aconteceu a quinta Edição Especial dos Melhores Cafés do Brasil que reuniu 22 tipos de cafés gourmets. As empresas campeãs deste ano são a catarinense Café Guidalli, de Lages; as capixabas Café Campeão, de Cachoeiro de Itapemirim; e Café Vista Linda (marca Café Glória), de Vila Velha; e a baiana Café Sobesa (marca Café Santés), de Santana.
O apreciador da bebida ganhou máquinas automáticas e super automáticas para degustar um bom café em casa. As tradicionais garrafas térmicas de locais como consultórios, hospitais e salas de estar foram substituídas por equipamentos sofisticados para extrair goles de prazer. “A bebida de qualidade está na mão do consumidor”, acrescenta Herszkowicz. Tanto o mercado doméstico quando o corporativo já movimenta 20% ao ano do segmento de máquinas. A crise passa bem longe do café. A energia da cafeína contagiou o setor. E é possível até ter uma maquina de café espresso portátil como a Handpresso Wild, que já é moda na Europa. Definitivamente, beber um cafezinho vai além de uma dose para reanimar. A xícara ganhou personalidade, estilo e status, revelando mais um potencial gastronômico do Brasil.
No próximo dia 24 de maio é comemorado o Dia Nacional do Café e a consolidação do café de qualidade é um grande avanço para o setor. Antes o melhor da produção era destinada ao exterior. Agora, o mercado consumidor brasileiro demanda por cafés especiais, finos ou gourmets. Entre as ações comemorativas está o Armazém do Café, no Rio de Janeiro, que promove a campanha “Sua Contribuição faz bem ao Coração”. Toda a renda de café espresso será revertida para a associação Pró-Criança Cardíaca. O Museu do Café de Santos, em São Paulo, terá programação especial com exibição de documentário durante todo o dia, degustação de produtos derivados do café e música ao vivo, a partir das 15h. A entrada é franca. O Café do Porto, em Porto Alegre, realiza o Dia do Espresso Feliz a renda obtida com o consumo de espressos no Dia do Espresso Feliz é destinada em sua totalidade à Casa do Menino Jesus de Praga.
Equipe Malagueta
Texto: Juliana Dias
Edição de imagens: Carolina Amorim
Revisão: Juliana Esteves e Viviana Navarro
Imprimir este Post


