Era uma vez um país em que todos eram livres. Pra preguiçar embaixo do coqueiro, namorar quem bem entendesse e aproveitar a comida boa, que ficava à disposição em terra, mar e ar, bastava abrir a boca. Mas não é nada fácil chegar lá. O país fica escondido, ou muda de lugar, e por isso quem encontra não deve fazer a besteira de partir.
A Cocanha entrou na carta geográfica mundial na Idade Média. Numa época em que tudo era fome, injustiça e preconceito, o mito dessa combinação de casa da bruxa de João e Maria com ilha de Lost povoava os sonhos das gentes com promessas de abundância, ociosidade, liberdade, juventude eterna. Daí pra cá, muitos buscaram sem encontrar, adaptando a descrição desse paraíso libertino a seu bel prazer.
O mito surgiu, diz-se num fabliau francês do século XIII. Lá explica que a Cocanha tem telhados de toucinho, cercas de salsicha, campos de trigo cercados de carne assada e presunto, gansos que se assam sozinhos pela rua e riachos de vinho (metade tinto, metade branco). Lá quem mais dorme mais ganha, tem feriado e domingo todo dia, quatro carnavais e natais por ano, quaresma só a cada duas décadas.
“Na Cocanha há comida e bebida, sem preocupação, esforço e trabalho. Ali come-se bem, bebe-se clarete, ao meio dia, às 16:00 e no jantar”, diz um poema inglês do século XIII, que discorre sobre rios de azeite, leite, mel e vinho.
As histórias seguem, com muitas similaridades entre si, até meados do século XX. Depois a Cocanha saiu dos guias de viagem imaginários, o que é curioso. Se não acreditamos mais em uma terra onde a sobrevivência é incrivelmente facilitada, acho eu, é porque não precisamos mais disso. Será o caso?
Não é o meu, e por isso eu me recuso a acreditar que já não tem Cocanha. Esse país de sonho existe, saibam vocês. E um dia ele fará parte do meu endereço, assim: Joana Pellerano, Rua do Queijo com Goiabada, 15, Cocanha. E vocês todos podem ir me visitar no feriado.
*Joana Pellerano é jornalista e escreve o blog Apetite
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