A cidade de Antônio Prado, localizada na encosta do nordeste gaúcho, foi o ponto de encontro para discutir biodiversidade brasileira, agricultura familiar, produção orgânica e comércio justo. Promovido pelo Instituto Morro da Cutia de Agroecologia (IMCA), o encontro reuniu líderes do movimento Slow Food; representantes do SDT (Secretaria de Desenvolvimento Territorial), que faz parte do MDA (Ministério de Desenvolvimento Agrário); e associações como a Cooperativas Sem Fronteiras e a organização italiana Libera-Terra. O evento integrado aconteceu entre os dias 29 de maio e 03 de julho, dividido em dois seminários: “agrobiodiversidade, desenvolvimento sustentável e comercialização solidária”, e “dinamização econômica: comercialização solidária e comércio justo e solidário”. Ainda em paralelo foi a realizada a conferência internacional Cooperar sem Fronteiras. Antônio Prado é considerada a primeira Slow City do Sul do Brasil e é cidade mais italiana do Brasil.
A programação começou no sábado, dia 30, em Porto Alegre, onde os grupos do Slow Food e do SDT visitaram duas feiras agroecológicas. A primeira parada foi no bairro Menino Deus, que há 14 anos trabalha com produtores rurais da região e atende mais de 400 famílias. O senhor Joacir Pacheco, 72 anos, é um dos feirantes que trabalha com a funcionalidade dos alimentos. Sua barraca é uma das primeiras e, com simpatia, ele recebe o público com degustação de seu suco à base de gengibre, limão e hortelã. A bebida refrescante e saborosa pode ser servida quente ou fria. Com cores vivas e diversas, o passeio revelou sabores como agrião roxo, manjericão do sertão, chuchu branco, bergamota do Caí, pães e bolos de grãos artesanais, além de sucos e vinagres.
A segunda visita foi ao Parque da Redenção, que abriga há 20 anos a feira de agricultores ecologistas. É maior em extensão como também em variedade de produtos. Esta foi a primeira organizada no Sul do país, que desencadeou iniciativas em outras regiões. Hoje, existem cerca de 150 feiras agroecológicas, que acontecem semanalmente nos centros urbanos e em pequenas comunidades rurais. Nas bancas, agricultores exibem arrozes, feijões, queijos, farinhas, frutas e pães. É um passeio à regiões rurais do sul concentradas em um único lugar. Na fala dos produtores, há orgulho e prazer de oferecer seu alimento, cultivado com dedicação. Do outro lado, os consumidores valorizam o contato com a origem dos alimentos e dos guardiões da terra. Tudo tem um colorido diferente e um brilho que vai além do frescor típico de produtos orgânicos, dispostos em prateleiras de supermercado. Estão envolvidos com histórias, embalados em culturas e tradições. Escolher essas feiras para abastecer a despensa de casa é garantir a continuidade da vida no campo e na cidade. Muitos produtores já têm certificação da Ecovida, mas a maioria ainda não dispõe desse mecanismo. Entretanto, há a confiança na qualidade de seu trabalho, reconhecido pelo grupo. À noite, aproximadamente 300 pessoas de 14 países participaram da abertura oficial dos dois eventos, promovido pela prefeitura local. Os visitantes foram recebidos com comidas típicas, como a sopa imperial (candidada à Patrimônio Imaterial) ao som de músicas italianas e gaúchas, que animaram o intercâmbio cultural.
No domingo, dia 31, a coordenadora de projetos especiais do Slow Food, Roberta Sá, apresentou às entidades participantes as bases da filosofia da associação internacional. Sob o conceito Bom (agradável ao paladar), limpo (livre de agrotóxico) e justo (preço justo para produtores e consumidores), o movimento está presente em 135 países e conta mais de 100 mil membros. A proposta é agregar valor à agricultura familiar e orgânica, conectando-os aos chefs de cozinha, acadêmicos, jovens e consumidores. Utilizando o conceito da ecogastronomia associa o prazer de comer com a responsabilidade social e ambiental.
O encontro também marcou o lançamento oficial do projeto Mercados da Terra, iniciativa da fundação Slow Food para biodiversidade. A coordenadora da associação para a América Latina, Lia Poggio, destacou a importância de criar espaços públicos para reunir uma amostra de produtos regionais, que valorize aspectos como a comunicação, qualidade e diversidade dos alimentos. Entre os critérios para participar do mercado estão preços justos, preocupação com o meio ambiente e a sustentabilidade. Trata-se de uma rede de mercados para relacionar produtores e co-produtores, como são chamados os consumidores comprometidos com a cadeia alimentar. Entre os benefícios, auxílio para a confecção de material explicativo sobre produção e origem dos alimentos e realização de atividades culturais para integrar a população.
A articulação do mercado é feita por meio de uma aliança entre cidadãos (entidades públicas), produtores (associações) e o Slow Food. O projeto já está em funcionamento em cinco pontos da Itália, três no Líbano e um em Israel. Há previsão de novos espaços em outros países ainda este ano. “Foi muito interessante apresentar o projeto Mercados da Terra para os líderes do Slow Food no Brasil e Agentes de Desenvolvimento Econômico (ADE) do SDT porque são dois grupos que podem colaborar na atuação desse projeto ou de similares. O modelo pode ser adaptado às diferentes realidades brasileiras. O agricultor familiar terá a possibilidade de vender seus produtos de qualidade com apoio técnico, financeiro e de comunicação e educação do gosto”, justifica Lia.
No evento, a liderança do movimento no Brasil estava representada por Margarida Nogueira (Rio de Janeiro), Cênia Salles (São Paulo), Mário Firmino (Campinas/SP), Evanilda Prospero (Piracicaba/SP), Cláudio Andrade (Florianópolis/SC), Eliane dos Reis (Lajes e Urubici/SC), Kátia Karam (Pirinópolis/GO), Adriana Lucena (Potiguar/RN), Irineide Teixeira (Recife/PE), Ofir Oliveira (Balneário do Camboriu/SC), Jussara Dantas (Uauá/BA), Fábio Sicília (Belém/PA) e Fabiana e Adair (Porto Alegre/RS). Também estavam presentes as jornalistas Neide Rigo (Come-se) e Priscila Santos (Guia Verde).
Cada núcleo é chamado de convivium, onde são desenvolvidas atividades entre os sócios como jantares, degustações e educação do gosto. No total, existem cerca de 20 convivia no Brasil. Outro enfoque é a preservação de alimentos em extinção, que são protegidos através de Fortalezas, conjunto de ações que oferecem condições de comercialização justa e continuidade das espécies. Atualmente, oito alimentos fazem parte das Fortalezas. Entre eles, o Aratu (Sergipe), Pinhão (serra catarinense) e Umbu (Bahia).
Para o secretário do SDT, Humberto Oliveira, o Brasil não pode se desenvolver sem o meio rural e a filosofia da associação vem ao encontro da proposta de revigorar o campo. Cerca de 26 Agentes de Desenvolvimento Econômicos (ADE) foram contratados para estimular debates e propor soluções em territórios agrícolas, que serão encaminhadas aos setores responsáveis. “Os países desenvolvidos estão voltando a atenção para o meio rural para criar políticas de desenvolvimento. Estamos estudando o exemplo da França, Espanha e do Reino Unido. É preciso implementar ações diferenciadas com flexibilizações de leis trabalhistas e fiscais. Temos que ampliar o debate do que é o rural. Nosso foco são as comunidades do alimento e agricultores familiares, que precisam ter seu trabalho valorizado. E também é importante atrair os chefs de cozinha, que são formadores de opinião.”, afirma Oliveira.
Segundo o diretor de cooperativismo em negócios e comércio do SDT, Vital de Carvalho, o programa brasileiro de agrobiodiversidade está afinado com a visão do Slow. A secretaria opera com parceiros em todo país em mais de 40 instituições com cerca de 50 unidades de assessoramento técnico, como ONGs e cooperativas, e a meta é chegar a 185 até o final do governo. “Se o tripé do Slow Food (bom, limpo e justo) fosse compreendido pelas áreas competentes, já seria um grande avanço para valorizar a gastronomia local”, declara.
Para que a sustentabilidade dessa cadeia produtiva seja eficiente é preciso o encolvimento e engajamento de todos os setores da sociedade. O encontro em Antônio Prado colocou na mesa diferentes atores do setor de alimentação para discutirem iniciativas que valorizem os agricultores, a biodiversidade e que os produtos sejam comercializados a um preço justo. Ainda é preciso preparar chefs, jovens e acadêmicos para disseminarem informação de qualidade e colaborar para formar os co-produtores. O primeiro fruto dessa reunião inaugural será selecionar locais e parceiros para lançar o projeto Mercado da Terra no Brasil. Como definiu o articulista e agricultor Wendell Berry, se comer é um ato agrícola, há muito que semear para enaltecer as cozinhas regionais, a partir da agricultura familiar e cultivo orgânico.
Equipe Malagueta
Texto: Juliana Dias
Fotos: Mário Firmino
Edição de imagens: Carolina Amorim
Revisão: Juliana Esteves e Viviana Navarro
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junho 4th, 2009 às 23:50
Parabéns pela matéria Jú!Está linda!
Se todos os cozinheiros tivessem a consciência de respeitar os produtos e seus produtores locais, com certeza teriamos uma culinaria regional verdadeira!
Adorei!ótima iniciativa!
Um beijo grande!
Mari
junho 5th, 2009 às 9:46
Estas ações e iniciativas fazem a diferença. Realmente está na hora de saírmos do imobilismo e começar a agir. Importante a reflexão sobre o que consumimos e como isso impacta o meio ambiente (econômico, social, ambiental…). Acreditoa que temos que optar para saber o que queremos para nossa vida…
Grande abraço à todos…
Andréa
IMCA
junho 30th, 2009 às 18:50
Parabéns por fazerem este evento em Antonio Prado !!!! Fantástico !
Quero participar da proxima vez.
Cidade simbolo da arquitetura italiana.
Que outros tantos aconteçam, para uma maior concientização !!
Saúde à todos !!
Marilei