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Cozinheira de pimenta

O plano de ter uma vida sossegada, longe da agitação dos centros urbanos, remete ao estilo de vida ideal. Sem estresse, rotina exaustiva e de compromissos, o sujeito pode gozar de melhor saúde e tempo para dedicar à família.Não é uma meta que se planeja no meio de uma carreira. É aquela sobremesa, a melhor parte para encerrar com louvor uma refeição memorável. Advogada especializada em políticas agrícolas, a potiguar Adriana Lucena optou pela “simplicidade voluntária”. 

molhode_pimenta.jpgDesde 2001, ela empreendeu uma mudança radical para se dedicar à produção de pimentas no município de Jandaíra, num pequeno povoado chamado Cabeço, situado na microregião da Baixa Verde do Rio Grande do Norte. Lá, a chef e pesquisadora estabeleceu a Quinta da Aroeira, onde já chegou a cultivar cerca de 48 variedades. Além de advogada, Adriana também era professora universitária na capital Natal e resolveu apimentar o campo e a vida.

A decisão demorou um ano, mas o envolvimento com a cozinha é herança dos avós e do pai,  que é sociólogo, cozinheiro, pesquisador e autor de livros de gastronomia. Seu primeiro contato com o mundo dos aromas e sabores foi aos 8 anos, quando ajudava o senhor Jardelino Lucena a tirar os cabinhos das pimentas. Ele preparava molhos para os amigos. “É o grande cozinheiro que me ensinou a cozinhar desde cedo. Hoje ele está aposentado e só escreve”, conta. Entre os temas pesquisados por Lucena estão pratos regionais como carne de sol, lingüiça do sertão e queijo de manteiga. Adriana sempre o acompanhava nessas etnografias culinárias. “Decidi me dedicar à agricultura, cozinha e produção de pimentas. Fui aperfeiçoando o paladar, identificando o tipo de sabor, grão, aroma e ardume”, explica a chef bem-humorada e de temperamento apimentado.

Hoje, seu trabalho está baseado na harmonização de pimentas, desenvolvendo geléias e molhos. A especialista esclarece algumas questões sobre os tipos mais comuns: “As pimentas amarelas são as mais aromáticas, conhecidas como ‘de cheiro’, caracterizadas por forte ardor. Já as ‘doces’ não ardem. A popular biquinho tem sabor, quando feita em conserva”, descreve. Como sugestão de consumo, Adriana harmoniza as amarelas com alimentos verdes, como feijões de corda ou macaço. “Usamos muito a pimenta cumari, esmagada no caldo do feijão, que forma um molho saboroso para acompanhar”.

As vermelhas combinam melhor com as carnes, mas a chef descobriu que existe uma variação de aromas e sabores, que casam com determinadas características. As carnes de caças ou exóticas harmonizam com as mais ardidas. A Malagueta atinge o grau de picância 9 na escala de temperatura, entretanto não é muito aromática. “É perfeita para uma feijoada”, comenta Adriana. Já a pimenta de bode, combina com pastéis, tortas, cozidos e guisados de carne. Um exemplo é  o empadão goiano.

Já as pimentas doces, que não ardem, devem ser consumidas verdes, nunca vermelha, avisa a chef. Estas são consideradas polivalentes, podem ser usadas em caldas para sorvetes e doces, por exemplo. “Faça uma caldinha de açúcar e, no final, jogue a pimenta verde e espalhe no sorvete. É simples e fantástico. A gente vai descobrindo essas coisas”, conta despretenciosamente. Entre as alquimias apimentadas, um de seus molhos leva mais de 15 tipos de especiarias.

Adrianalucena.jpgResgatar receitas tradicionais também é um dos desafios da chef, que diz viver para valorizar a gastronomia de sua região.  Adriana recuperou a molheira, processo de envelhecimento de pimentas na cachaça, azeite e sal, que compõe um blend. É possível mesclar as garrafas e testar sabores e aromas. A outra relíquia recuperada foi a jiquitaia, tradição indígena ensinada por sua mãe. O nome tupi-guarani é a junção de sal com pimenta, que eram pisadas nas cinzas e usadas como tempero pelos índios. “Eles não comiam sal, por isso secavam as folhas de pimentas e pisavam em cinzas para colocar em cima do peixe. Alternavam um bocado de peixe e outro de jequitaia”, descreve. A tribo dos Macuxis fabricam a receita até hoje e essa arte faz parte da Arca do Gosto, projeto do Slow Food para preservar tradições alimentares. Adriana lidera o grupo Potiguar, onde o movimento tem um convivium.

A jiquitaia também é feita com soro de leite, outra técnica descoberta pelos índios. “Quando a índia, nossa primeira cozinheira, entra na cozinha da branca, ela descobre o leite e o queijo. Elas começaram a misturar o soro, pimenta e sal, aprimorando a receita, ainda muito utilizada no sertão da Paraíba, e principalmente, no Rio Grande do Norte, em locais que se produz queijo.

“Nada teria sentido para mim se não fosse a apresentação da cultura gastronômica. O sentido da minha vida é divulgar a necessidade da preservação da cultura alimentar”, declara a chef, que já apresentou suas pimentas para cozinheiros do Brasil e exterior.  Eles são o seu público final. Ao mostrar a diversidade das cozinhas regionais do Norte, Adriana garante que a mensagem vai chegar ao comensal e o potencial dos ingredientes será explorado. Apesar da vida quieta, no mato, como gosta de dizer, sua rotina tem sabor e é apimentada. Ela ministra aulas de fundamentos da culinária no curso de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e no Hotel Escola Barreira Roxa. “É importante que não se perca nosso referencial de cultura”, justifica.

A Quinta da Aoeira também é aberta à visitação. Regularmente, ela recebe grupos de turistas do Brasil, e de países como Estados Unidos e Noruega, para promover as chamadas degustações matutas. No cardápio, o clássico sertanejo “galinha com pirão de mulher parida”. Só as mulheres em pós-parto podiam se alimentar desse prato. A ave passava um período de engorda de 40 dias, mesmo prazo do resguardo. E o tempero era frugal: alho, cebola, colorau e hortelã. Adriana conta que elabora o cardápio baseado na identidade cultural do comensal e contextualizada com os pratos regionais. A buchada e bichos muito exóticos do mato, por exemplo, são dispensados nos pedidos. O tempero da chef agora vai acompanhar a grife Cordeiro nobre, que irá comercializar cortes especiais em uma loja especializada em Natal.

Engajada, apimentada, doce e provocativa, a chef potiguar declara que sua missão “é mexer com os pensamentos, a partir do alimento”. Apesar dos percalços, como enchentes que devastaram a plantação de pimentas, ela conta que, principalmente nos tropeços, reconhece que está no caminho certo. “A cozinha é a minha paixão, me instiga a buscar a essência das coisas”, finaliza.

Abaixo, a chef dá a receita do Jequitaia

“Pimentas variadas frescas (geralmente, utilizam malagueta e cheiro comum. Prefiro usar cumari do Pará e bola, limpas e sem o cabinho); sal grosso e soro de queijo. Lave e esterelize um vidro escuro e deixe-o secar totalmente. Coe o soro. Introduza as pimentas até metade do vidro, coloque o sal e depois o soro, deixando um espaço de dois dedos abaixo do gargalo. Vede com uma rolha envolta em plástico resistente (antigamente se fazia isso com pedaço de pau e linho).

Diarimente, durante 30 dias, abra lenta e cuidadosamente a garrafa para deixar sair o gás. Espere alguns minutos e lacre de novo. Faça isso de preferência sempre na mesma hora do dia. Só utilize a jiquitaia quando tiver certeza que não existe mais “gás”.

Equipe Malagueta
Texto: Juliana Dias
Edição de imagens: Carolina Amorim ( Fotografia Pimenta Capa de Rodolfo Fracalossi Paes )
Revisão: Juliana Esteves

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12 comentários sobre este Post

  1. vitor ronaldo costa Diz:

    À Chef Adriana Lucena

    Lá na Quinta da Aroeira
    Segundo o povo comenta
    Se fabrica um molho fino
    Da mais gostosa pimenta
    Que previne e cura câncer
    De quem dela se alimenta

    Vitor Ronaldo Costa

  2. karen Diz:

    Parabens à Chef Adriana Lucena. Iniciativa porreta e corajosa. Adoraria visitar-la e conhecer todas as suas pimentas. Um abraço, Karen.

  3. Alexandre Bakker Diz:

    Oi Adriana, parabéns pelo sucesso, voce merece, batalhadora e tinhosa em suas idéias; verdadeira. Abraço do amigo pimenteiro,
    Alexandre

  4. Teresa Corção Diz:

    Maravilha Adriana! Colega apimentada dessa mandioqueira carioca aqui. Que nossos tempêros se encontrem num futuro próximo! Parabéns pela luta e pela mensagem, tão importante para nossos futuros cozinheiros. Saudades, Teresa

  5. Guga Diz:

    Oi Adriana, felizmente temos você para resgatar nossa culinária; Parabéns…
    de Gustavo e Fernanda.

  6. Carlos Pinto Diz:

    Grande Chef Adriana;
    Ao ler este artigo, recordo-me dos bons momentos que experimentei, ao visitar a “Quinta da Aroeira”!
    Lá, tive a oportunidade de degustar os vários sabores das pimentas, em suas mais diversas apresentações e no mais acolhedor ambiente regional.
    Parabéns pelo seu profissionalismo e seu apurado bom gosto!
    Abraços,
    Carlos Pinto.

  7. alberto sá Diz:

    Se possível,gostaria de receber de você uma receita para molho de pimenta malaguêta, ingredientes, quantidades e modo de fazer.
    parabenizo por esse trabalho com a pimenta, sou técnico agrícola e trabalho com a pimenta malaguêta(tabasco)
    alberto sá

  8. Beth Beltrao Diz:

    Ola Adriana
    Parabens ficou muito legal a materia. Espero poder te ver aqui em Tiradentes no Festival gastronomico. Ja estou com saudades da nossa ida a Italia. Venha botar um pouco da sua maravilhosa pimenta em nossa terrinha
    Beijos
    Beth Beltrao

  9. Simone Diz:

    Adriana,
    Amiga brilhante e batalhadora, sou sua fã!! adoro suas pimentas e geleais, são maravilhosasss e dão água na boca. Parabéns pela sua determinação e desejo muito sucesso.
    bjs

  10. ADRIANA LUCENA Diz:

    Obrigada a todos pelas palavras carinhosas. Fiquei emocionada ao ler os comentários. Vocês me fazem ter certeza que vale a pena fazer o que se gosta e acredita! Tereza e Beth! Tou morrendo de saudade de vcs também! vcs são parte de minha inspiração e aprendizado!
    Alberto Sá: em breve estarei assinando uma coluna aqui na MALAGUETA sobre pimentas, claro! e você terá a receita que pede. Mas um pequeno detalhe: tabasco é uma pimenta; malagueta outra…. apesar de serem da mesma espécie.
    Beijos apimentados (com todo respeito!!!)

  11. miriam bemerguy Diz:

    adriana, shalom
    fiquei encantada com esse artigo, voce esta de parabens.
    moro no rio de janeiro, trabalho com representacoes para exportacao.
    no momento estou em londres, em casa de filha que esta para ter seu 2o baby.
    conheci aqui pessoa que quer importar pimentas e condimentos brasileiros para a russia. gostaria muito de representar seus produtos para esse fim. pode ser?
    aguardando seu retorno,
    tudo de bom
    miriam
    cel em londres: 0044 78 16 78 34 98

  12. luiz antonio facioli Diz:

    Srs. Como curtir pimentas na salmoura ( agua e sal ). agradeço luiz antonio facioli
    e.mail : lantoniofacioli@superig.com.br

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