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O iodo e a flor de sal

Contra a estupidez: salvem a flor de sal”! Esse é mote da campanha, lançada pela chef Roberta Sudbrack em seu blog, no dia 1 de setembro. O apelo ecoou na internet e logo ganhou adesão. Apenas em sua página, 54 comentários solidários manifestaram apoio à iniciativa, além das mensagens no twitter. Os blogs Cuecas na Cozinha, Crianças na Cozinha, Mixirica e a crítica de gastronomia Luciana Fróes também postaram o manifesto. E o Informativo Malagueta divulgou nota na semana passada. Por ter sido a matéria mais acessada da semana, decidimos apurar.

O centro da polêmica da flor de sal está no antigo embate entre saúde e gastronomia. Alexandre Dumas, em suas Memórias Gastronômicas (Ed. Jorge Zahar), diz que “a gastronomia está desaparecendo, e, com ela, os últimos resíduos da antiga civilização. As corporações organizadas, como a dos médicos, deveriam fazer todos os esforços para impedir a sociedade de se dissipar”. As pesquisas científicas, muitas vezes patrocinadas pela indústria alimentícia, pode determinar a dieta alimentar e influenciar no gosto.

site_flordesal.jpgNo Brasil, a decisão de acrescentar iodo ao sal está relacionada à doença bócio endêmico (carência deste mineral). Em 1969, o Decreto-Lei 986 determinou que o sal só poderá ser comercializado no Brasil, depois de registrado no órgão competente da saúde. A Lei 6150, publicada em 1974, definiu que “todo o sal para consumo humano, no território brasileiro deve, obrigatoriamente, ser adicionado de iodo”. No ano de 2003, a resolução RDC 130 da ANVISA definiu que o sal deveria conter entre 20 e 60 miligramas de iodo por quilo.

O uso demasiado do mineral na alimentação aumentou a incidência de hipotiroidismo. De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto de Medicina Social da e pela Faculdade de Medicina da UFRJ, a inflamação na glândula tireóide afeta cerca de 10 milhões de pessoas no Brasil. E, ainda, é provável que exista mais de 10 milhões portadores de nódulos tireoidianos. Ainda segundo o estudo, entre 1994 e 2004 dobrou o número de pacientes com Tireoidite de Hashimoto. O excesso de iodo no sal de cozinha é apontado como um dos possíveis fatores.

Há seis anos o sal comercializado no Brasil precisa ter especificado a quantidade de iodo. Segunda a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a recomendação está baseada no relatório de estudo desenvolvido no país, como parte integrante do Projeto Thyromobil, na América Latina; da  Comissão Interinstitucional para o Controle dos Distúrbios por Deficiência de Iodo e mediante deliberação da Secretaria de Políticas de Saúde do Ministério da Saúde. A legislação federal tentou evitar certos tipos de doenças e acabou gerando novas.

A médica homeopata Maria Letícia explica que sais marinhos, como a Flor de Sal, ou rochosos, como o Himalaia, já contêm a proporção adequada de iodo para o corpo. “A quantidade do mineral nesses sais naturais é perfeita para nosso organismo”, diz.  Segundo a médica, a industrialização do sal elimina todos os minerais essenciais, transformando-o em produto inorgânico, de difícil absorção, que sobrecarrega o rim e provoca inchaço, além de pressão alta.

“O iodo é indispensável para o funcionamento do organismo. Não faz sentido proibir uma matéria-prima que vem da natureza”, afirma. Além do sal marinho, o iodo também é encontrado nos frutos do mar e em vários legumes, como vagem, agrião, cebola, alho poro; e frutas, como ameixas.

flordesal.jpgA fina flor pode faltar nos cardápios

A ANVISA já notificou as empresas importadoras de flor de sal sobre a necessidade de adequação à legislação brasileira. A fiscalização fica a cargo da vigilância sanitária dos estados e municípios. A pena para esse tipo de infração sanitária é de até R$ 1.5 milhão. A agência informou que a Flor de Sal só está sendo importada devido a uma modificação na característica do produto.

Nas prateleiras de supermercados como Zona Sul (RJ), Pão de Açúcar e Casa Santa Luzia (SP) a francesa flor de sal de Guérande, ainda pode ser encontrada. Não se sabe por quanto tempo. A versão brasileira dos cristais marinhos abre vantagem sobre as concorrentes importadas. A flor de sal produzida em Mossoró, no Rio Grande do Norte, está adequada às regras da ANVISA, segundo Roberto de Freitas, coordenador comercial da Cimsal. Ele destaca que o processo de coleta e envasamento é artesanal com know-how da frança, mas que foi preciso pulverizar iodo para atender as exigências. A salina funciona desde 1974 e é a terceira maior do país.

Letícia questiona quanto ao tipo de iodo artificial que é acrescido ao sal natural. “Eu gostaria  de ter a liberdade para escolher que tipo sal eu vou usar na minha comida”, contesta. Além do mais, os delicados cristais são utilizados para finalizações. Normalmente são combinados com outros sais.

Engajamento em prol dos cristais naturais

A pequena cidade de Guérande, localizada ao Noroeste da Bretanha, é o destino mais famoso dessa fina flor. A chamada Ilha Branca já utiliza os cristais desde 854 a.C. e até o século XV, o consumo era apenas para o vilarejo. Foi no século XVII que começou a exportar para todo o mundo.  Segundo o gastrônomo Paulo A Lima, que exporta a flor de Guérande para mais de 40 países, a restrição no Brasil está associada às grandes empresas de sal. “Elas não querem que o consumidor conheça de verdade um produto porque o industrial é bom bonito e barato e não tem que mudar. Flor de sal é um dos mais antigos e tradicionais ingredientes da história humana. É delicado com um teor de sódio muito leve e nem todos os cozinheiros sabem usar. Não poder ter no Brasil é uma bobagem”, declara Lima.

A ANVISA esclarece que a legislação só poderá ser alterada no Congresso Nacional. Diante da polêmica especificação de iodo que contrapõe saúde e gastronomia, cabe aos profissionais que trabalham com esta matéria-prima endossar a campanha de Roberta Sudbrack. Mais do que descobrir produtos incríveis e surpreender o paladar, a militância e o engajamentos são necessários para salvar a gastronomia.

Equipe Malagueta
Texto: Juliana Dias
Edição de imagens: Carolina Amorim
Revisão: Vanessa Souza Moraes

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12 comentários sobre este Post

  1. Mariana Marcial de Almeida Diz:

    Acho que deve sim existir orgãos de regulamentação e fiscalização dos produtos que chegam à mesa dos brasileiros. Contudo, muitas vezes, tais orgãos criam normas sem compreender a realidade das pessoas que iram aplicá-las. Moro em BH e, aqui em Minas Gerais, vivenciamos situações revoltantes. Como pode um produtor rural, que faz seu produto artesanal (porque agora não podemos mais chamar de produto caseiro), com uma renda mínima, se adequar a padrões surreais para ele. Investir em equipamentos e tal, tem um custo alto. Por exemplo, alguns produtores aceitam proposta de marcas maiores para finaciar sua queijaria, toda moderna, com um custo de 20 mil, e fica na mão desse “financiador” o resto da vida, pois quando vai conseguir pagar esse montante. Além disso, ainda acaba com a cultura do produto, tira suas características. Nessa linha, gostaria de elogiar o trabalho que a Emater faz, pois eles vão ao campo, fazem um trabalho de conscientização e adequam o processo de trabalho de acordo com a realidade do produtor. Estão tentando acabar com nossa gastronomia, uma forte manifestação cultural, mas cabe a nós impedir. A Roberta sempre faz essas campanhas, é um exemplo a ser seguido.

  2. Isaac A. Kojima Diz:

    Isso me lembra que a Anvisa também obriga que qualquer laticínio deva ser feito com leite pasturizado. Aí se perde o brie feito com leite cru e o queijo Canastra de Minas.
    Esses excessos da gastronomia me irrita.

  3. Evelyn Diz:

    Pensando em tudo isso, me lembrei da proibição da semente de papoula.

  4. Luiz Prado Diz:

    Sinais da estupidez do poder público, que quer legislar sobre tudo por falta do que fazer ou para favorecer grupos de interesse (mais frequentemente). Será que precisaremos de um Gandhi para depois de uma longa caminhada apanhar sal natual no mar??? São uns cretinos absolutos.

  5. Ernesto Diz:

    Esse problema dos queijos parece que está em pauta na França também porque as leis sanitárias da Comunidade Européia também obrigam o uso do leite pasteurizado.
    Ouvi e li que a briga é grande para salvar os queijos franceses tradicionais.
    Alguém sabe como anda essa história por lá?

  6. Ernesto Diz:

    Também li que para a fabricação de chucrute caseiro e algumas conservas fermentadas não se recomenda o uso de sal iodado por interferir na fermentação.
    Alguém sabe se isso é verdade?

  7. sandra Diz:

    Parabéns, meninas. Atitudes impensadas, medidas inadequadas, e o consumo frenético de fastfood é ignorado.

  8. sandra Diz:

    medidas impensadas…

  9. Raquel Valentini Diz:

    Ainda acho que é o fracasso que sobe a cabeça… Alguém já viu um ser sábio cometer burrices do tipo? Alguém já viu um ser sábio fazer algo que não seja para o bem de todos? Atualmente, eles ainda não chegaram lá. Deem espaço aos sábios!

  10. Lú Castro Diz:

    Uso a flor de sal do sul de Portugal.
    O responsável pela extração do mesmo ,nessa região , foi um dos ganhadores do prêmio que , o movimento Slow Food , destina à pessoas como ele ,que tem a conscientizaçao do que é melhor para todos .
    Vamos entrar nessa luta .

  11. isabel Diz:

    Parabéns pela matéria notificando o sal. Aproveitando que a Ana Maria Braga está
    com o programa “Super Chef” por que os Super Chefs, que lá vão para dar uma boa dica, não abordam o tema?

    Bauci

  12. IvanDarini Diz:

    Por isso que vou mnorar na França!!!!!!
    hahahahah

2 Trackbacks para este Post

  1. Flor do sal, ameaçada no Brasil « MultiUniversus Diz:

    [...] a leitura do blog da Roberta Sudbrack a respeito. O site das meninas (também cariocas) da Malagueta tem infomações mais [...]

  2. Movimento “Salvem a Flor de Sal!” de Roberta Sudbrack ganha força no Twitter - Boa vida Página 2009 - VIAJEAQUI Diz:

    [...] melhor apurou a história foi a assessoria de imprensa Malagueta: No Brasil, a decisão de acrescentar iodo ao sal está relacionada à doença bócio endêmico [...]

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