O que Jesus comeria? A pergunta, que faz referência à popular frase americana What would you do? , é o título do livro do médico norte-americano Don Colbert para propor uma dieta alimentar, centrada nos ensinamentos bíblicos. O autor contextualiza a vida de Jesus com dados de pesquisas científicas e aproxima sua alimentação com a Dieta Mediterrânea. No Brasil, o livro foi traduzido como “A dieta de Jesus e de seus discípulos” (Ed Thomas Nelson). O regime alimentar de Cristo não era nada frugal, mas diversificado e saudável. No cardápio, carnes (sem gordura), aves, peixes, muitos frutos, cereais integrais, queijos, iogurte, azeite, ovos, mel, nozes e vegetais. E muita água. O Novo Testamento descreve situações freqüentes em que Jesus estava sentado à mesa, saboreando guisados, assados e cozidos.
A comida foi a linguagem utilizada por Ele para sacramentar a mensagem do cristianismo, onde a mesa é lugar de se relacionar com pessoas sem distinção. Ele sentou-se com nobres, plebeus, prostitutas, pecadores e até traidores. Essa postura quebrou paradigmas, pois a ceia era compartilhada somente com iguais. Sua última refeição, intitulada “A última ceia”, foi durante a Páscoa, festa que comemora o fim da escravidão dos judeus no Egito.
“(…) assentou-se à mesa com os doze. (…) Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, abençoando-o e partiu, e o deu aos seus discípulos. (…) E, tomando o cálice e dando graças, deu-lho dizendo: bebei dele todos”, (Mateus 27:20,26 e27). Jesus escolheu a Páscoa para encerrar sua missão e, foi numa refeição que instituiu a memória gustativa, e o pão e o vinho como símbolos da comunhão. “Toda vez que comerdes do pão e beberdes do vinho, fazei em memória de mim”. Após esse episódio, que antecedeu a crucificação, a Páscoa passou a representar também a morte e ressurreição de Cristo.
A relação de Jesus com o pão também é ressaltada no livro, com referências a milagres, ensinamentos, parábolas e até na oração do Pai Nosso. Na época dEle, os pães eram feitos com farinha grossa de cereais integrais, cozidos sobre pedras grandes e planas, eram mais escuros e pesados do que os de hoje.
Segundo a tradição pascal, o cardápio é baseado em três elementos: cordeiro assado, pães asmos (sem fermento porque significa corrupção) e ervas amargas. Antes da fuga do Egito, sobreveio uma praga destruidora sobre aquele país e, somente as casas que tivessem marcadas com o sangue de um cordeiro macho de um ano de idade, seriam poupadas. Por isso, Pesah (do Hebreu) significa pular além da marca, passar por cima ou poupar. Na mesma noite, cada família preparou um banquete com o cordeiro, antes da travessia do Mar Vermelho, celebrando a Páscoa, a passagem.
Comida e religião são dois grandes temas que se cruzam para revelar identidade, espiritualidade e conexão com o divino. Sentar à mesa, compartilhar o pão e relembrar bons momentos são experiências transformadoras e se configuram como ritos de passagem, conforme a narrativa bíblica. Assim como uma refeição marcou a história cristã, a reunião em torno da comida se mantém como vínculo de fraternidade e cumplicidade. Mais do que investigar o que Jesus comeria se estivesse presente nos dias de hoje, seria interessante refletir como ele comeria. Será que em frente à TV, apressadamente? Somente em restaurantes? Ou manteria a mesa como o lugar sagrado das refeições? Talvez por esse princípio ser um potente agregador que a cozinha tornou-se o espaço social mais valorizado da casa contemporânea.
O retorno aos costumes de gerações passadas traz o charme do apelo gourmet, a sofisticação dos utensílios e o refinamento da culinária tradicional com releituras e versões inusitadas. Mas ainda com o propósito imutável de compartilhar, dividir, celebrar, degustar com prazer e registrar na memória as refeições, que se traduzem em histórias. Nesta Sexta-feira Santa, a sugestão do Informativo Malagueta é sentar à mesa para ressuscitar velhos hábitos: saborear uma refeição em família, devagar. Seja cordeiro, o popular bacalhau, pescados diversos ou frutos do mar. O importante é celebrar com clareza e consciência o significado revelador de uma receita compartilhada. Feliz Páscoa!.
Equipe Malagueta
Texto: Juliana Dias
Fotos e edição de imagens: Carolina Amorim
Revisão: Vanessa Sousa Moraes
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